Ouro, Cripto e o que de fato sustenta o valor

por Marcelo Domingues, Diretor de Expansão
quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Como economista, aprendi cedo uma verdade simples: moeda é confiança.

Confiança de que será aceita amanhã. Confiança de que preserva poder de compra. Confiança de que resiste quando o ambiente piora de verdade.

É aqui que ouro, moedas estatais e criptomoedas disputam o título de reserva de valor. Todos dependem de confiança, mas de naturezas diferentes. Essa diferença separa proteção de aposta.

Ouro: valor que existe apesar do sistema

O ouro não paga dividendos nem promete crescimento. Ele existe. Atravessou colapsos monetários, guerras, hiperinflações. Quando a confiança institucional treme, o ouro costuma preservar poder de compra porque não depende de ninguém cumprir obrigações.

Observação prática: hoje muito “ouro” é comprado digitalmente. Conveniente, sim, mas com contraparte (custodiante, plataforma). Ouro físico é a reserva sem intermediários. Ouro digital é prático, porém condicionado à infraestrutura.

Exemplos de estresse em que o ouro cumpriu papel defensivo: • Anos 1970 (inflação alta global) • Crise de 2008 (estresse financeiro sistêmico) • Pós-2020 (choques sucessivos, dívida pública elevada e incerteza geopolítica)

Moedas estatais: funcionam até quando precisam parar de funcionar

Real, dólar, euro: valem porque os emissores mantêm o sistema de pé. São essenciais para a vida econômica. Mas, como proteção total, seu destino segue o do emissor. Quando governos erram feio, a moeda sofre com eles.

Cripto: hipótese ambiciosa, ainda sem prova no pior cenário

Criptomoedas oferecem escassez programada e independência do Estado. A tese é elegante. Falta o teste supremo: funcionar quando o resto desaba.

Até agora, em crises recentes, bancos centrais preservaram a estrutura do sistema. Cripto ainda não foi obrigada a ser porto seguro em um colapso amplo e prolongado.

Riscos que permanecem:

Custódia e acesso (perda de chave, falhas de exchange, vetores de ataque)

Dependência de infraestrutura (se a rede falha, não há ativo físico “para cair de pé”)

Ambiente regulatório e confiança social (narrativas mudam)

Isso não invalida cripto; só a coloca no lugar certo: opcionalidade tecnológica, não âncora patrimonial.

“Winter is coming”: uma analogia útil, sem ilusões

Em cripto, fala-se muito em “inverno”. A referência a Game of Thrones é útil por um motivo simples:

As estações não são previsíveis. O verão pode durar demais e dar a impressão de que o inverno é lenda. Quando as estações não têm calendário, a segurança diminui.

Esse é o ponto. Não existe um relógio confiável para ciclos de cripto. Alguns “verões” são longos, “invernos” parecem intermináveis. Para reserva de valor, previsibilidade de comportamento em estresse importa. Até aqui, o ouro mostrou serviço justamente nos momentos difíceis.

O risco invisível que todos compartilham

Quase tudo hoje é digital: saldo bancário, ouro “na tela”, cripto. O risco comum está menos no ativo e mais na infraestrutura de acesso:

• Se um banco falha, há rede de proteção sistêmica, porque o sistema precisa funcionar.

• Se uma exchange falha, não há garantidor do mesmo porte.

• Se o custodiante do ouro digital falha, você precisa provar que o metal existe mesmo.

• Se a rede cripto sofre um ataque coordenado, a recuperação não é trivial.

Governança de risco importa tanto quanto o ativo.

Como um investidor com visão organiza a carteira

Não se trata de fé. Trata-se de papel econômico:

Moedas estatais → vida real, liquidez, pagamentos.

Ouroúltima linha de defesa em cenários extremos. Preferir entender a diferença entre possuir o metal e possuir um direito sobre o metal.

Criptoaposta de futuro. Tamanho limitado, tese clara, consciência de risco e de ciclos sem calendário.

Conclusão

Pergunta irrelevante: “Qual sobe mais?”

Pergunta certa: “Qual continua existindo quando o resto vacila?”

Ouro protege o que você já conquistou. Cripto tenta capturar o que pode ser conquistado. Moedas oficiais fazem o mundo funcionar entre um e outro.

Distinguir proteção de esperança é o que transforma visão em estratégia.