Nos últimos anos, dois termos passaram a ocupar espaço crescente em relatórios institucionais, políticas públicas e produtos financeiros: ativos verdes e ativos azuis.
Para alguns, representam o futuro inevitável da alocação de capital. Para outros, são apenas mais uma camada narrativa sobre ativos tradicionais.
Nenhuma das leituras, isoladamente, se sustenta.
Antes de decidir se faz sentido alocar recursos nesse campo, o investidor precisa separar três coisas que frequentemente aparecem misturadas: tese estrutural, estágio de maturidade financeira e viabilidade prática de investimento.
O que são, de fato, ativos verdes e ativos azuis?
Ativos verdes são investimentos associados à mitigação ou adaptação a riscos climáticos, com foco principal em:
- descarbonização de processos produtivos
- eficiência energética
- energias renováveis
- captura, redução ou compensação de emissões
Ativos azuis expandem essa lógica para sistemas hídricos e marinhos, incluindo:
- saneamento e gestão de água
- preservação de oceanos, rios e manguezais
- aquicultura sustentável
- projetos ligados à chamada economia azul, na interseção entre clima, água e segurança alimentar
A própria taxonomia europeia reconhece esses dois eixos como pilares distintos da agenda ambiental, com critérios técnicos separados, ainda em consolidação. (Fonte: Comissão Europeia, EU Taxonomy Regulation).
A promessa é clara: alinhar retorno financeiro com impacto ambiental mensurável. O problema não está na intenção, mas na execução financeira e regulatória.
Fundos verdes, ESG e azuis: onde está o risco real?
Hoje, a maior parte das críticas técnicas a esse universo converge para três pontos.
1) Falta de padronização
Não existe ainda um padrão global único que defina o que é ou não um ativo verde ou azul. Mesmo iniciativas robustas como a taxonomia europeia ainda estão em fase de ajustes.
Relatórios do CFA Institute apontam divergências relevantes entre classificações ESG de diferentes provedores, inclusive para os mesmos ativos.
2) Mensuração imperfeita de impacto
Retorno financeiro é observável. Impacto ambiental, não. Grande parte dos fundos depende de proxies, estimativas ou auto declaração das empresas investidas.
Isso cria assimetria de informação e abre espaço para narrativas difíceis de auditar em tempo real.
3) Greenwashing estrutural
Em muitos casos, o selo verde é aplicado depois da carteira montada, como camada de marketing, e não como princípio de construção da estratégia.
Estudos do International Organization of Securities Commissions e da SEC mostram aumento de ações regulatórias contra práticas de greenwashing desde 2022.
Por isso que hoje, para o investidor, muitos desses produtos funcionam mais como apostas temáticas do que como alocações estruturais consolidadas.
Tendência estrutural ou moda?
Aqui é importante separar narrativa de vetor real.
Transição energética, escassez hídrica e precificação de risco climático não são opiniões. São tendências respaldadas por dados do International Energy Agency, do World Bank e de seguradoras globais.
Ao mesmo tempo, a maior parte do retorno financeiro desses ativos ainda depende de:
- subsídios
- incentivos regulatórios
- mudanças de comportamento do consumidor
- maturação tecnológica
Isso torna o timing crítico.
Frase chave para o investidor: é cedo para concentração, mas tarde para ignorar.
Brasil: vantagem natural, gargalo financeiro
No papel, o Brasil reúne ativos ambientais raros:
- matriz elétrica majoritariamente renovável
- abundância hídrica relativa
- biodiversidade estratégica
- potencial em agricultura regenerativa e florestas
Na prática, persistem entraves conhecidos:
- insegurança regulatória
- baixa previsibilidade jurídica
- fragilidade de governança e auditoria ambiental
- dificuldade de transformar projetos ambientais em instrumentos financeiros líquidos
Relatórios do Banco Mundial e da OCDE apontam o Brasil como forte em ativos reais ambientais, mas fraco em estruturação financeira padronizada.
Resultado: muitos projetos fazem mais sentido como ativos corporativos, concessões ou private equity do que como fundos acessíveis ao investidor individual local.
Onde e como o investidor brasileiro pode acessar esse mercado?
Hoje, os veículos mais maduros estão concentrados em:
- Europa, especialmente Reino Unido e países nórdicos
- Estados Unidos
- Algumas jurisdições asiáticas com arcabouço regulatório mais estável
Por quê? Porque é onde há maior padronização, pressão regulatória e capital institucional de longo prazo.
Para o investidor brasileiro, os caminhos práticos são:
- fundos internacionais disponíveis via plataformas globais
- estruturas offshore reguladas
- ETFs temáticos globais, com leitura crítica da composição
- fundos de private equity ou infraestrutura, para perfis qualificados
No Brasil, a própria CVM ainda trata esses produtos de forma cautelosa, dada a dificuldade de verificação de impacto.
Papel desses ativos na estratégia de curto, médio e longo prazo
Aqui não cabe resposta única.
Curto prazo: Alta volatilidade, dependência de narrativa e eventos regulatórios. Em geral, não indicado como núcleo de carteira.
Médio prazo: Pode funcionar como alocação satélite, desde que o investidor aceite risco regulatório, tecnológico e de execução.
Longo prazo: Onde a tese faz mais sentido. Para quem pensa em décadas, acompanhar e construir exposição gradual é racional, desde que com governança, diversificação e critérios claros.
Alternativa considerada e descartada: tratar ativos verdes e azuis como substitutos automáticos de classes tradicionais.
Motivo do descarte: correlação, liquidez e risco ainda não justificam essa leitura.
Conclusão
Ativos verdes e azuis não são moda passageira. Mas também não são solução pronta.
Eles representam simultaneamente:
- uma tendência estrutural real
- um mercado financeiro ainda imaturo
- uma oportunidade que exige mais análise do que entusiasmo
Na GMX, o princípio permanece o mesmo:
Primeiro estrutura e governança. Narrativa vem depois.
Ignorar esse movimento pode ser erro estratégico. Entrar sem critério costuma ser erro financeiro.
Esse futuro está em formação e ainda não terminou de se provar.
