Como detectar esquemas fraudulentos de investimento

por Marcelo Domingues, Diretor de Expansão
quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Em tempos de fintechs, tokenizações, criptoativos e novos modelos de negócio, é fundamental reconhecer que inovação não elimina a necessidade de transparência, regulação e risco.

Nem toda novidade é golpe, mas alguns golpes se vestem de novidade. Para diferenciar, use critérios claros.

O que são esquemas de fraude financeira?

Esquema Ponzi

  • É um tipo de fraude em que investidores são prometidos retornos elevados com pouco ou nenhum risco, e parte dos “retornos” pagos aos investidores mais antigos vêm diretamente do dinheiro de novos investidores, e não de lucro real gerado pela operação. (Investopedia)
  • O esquema depende de um fluxo contínuo de novos aportes para manter o pagamento das promessas feitas. Quando esse fluxo desacelera ou cessa, o esquema “desmorona”. (Corporate Finance Institute)
  • O termo vem de Charles Ponzi, que nos anos 1920 ofereceu lucros rápidos com arbitragem de cupons postais, mas pagava investidores antigos com o dinheiro dos novos. (investor.gov)

Esquema de pirâmide (pyramid scheme)

  • Modelo em que os ganhos do participante dependem principalmente de sua capacidade de recrutar novos participantes, e não de um negócio produtivo ou serviço real. (Constantine Cannon)
  • Conforme o número de participantes cresce, torna-se cada vez mais difícil adicionar novos membros; eventualmente, o sistema torna-se insustentável, muitas pessoas deixam de ter retorno e o esquema colapsa. (Wikipedia)
  • Embora às vezes confundidos, os esquemas de pirâmide nem sempre envolvem promessa explícita de aplicação financeira — podem estar disfarçados como “marketing de rede”, “programas de indicação” ou “clubes de investimento”. (Wikipedia)

A distinção principal:

  • Ponzi foca no “investimento” — você aplica dinheiro com a promessa de retorno; esse retorno, porém, vem de novos aportes.
  • Pirâmide foca no “recrutamento” — seu ganho depende sobretudo de quantas pessoas você consegue trazer, mais do que da produtividade real do negócio.
  • Na prática, muitos golpes combinam características de ambos. (Constantine Cannon)

Exemplos históricos que ajudam a entender o padrão

  • O esquema de Bernard L. Madoff é um dos casos mais emblemáticos de Ponzi: envolveu bilhões de dólares, aportes vindos de muitos investidores confiantes, pagamentos mantidos enquanto o fluxo de capital novo se mantinha, e implosão quando o modelo não conseguiu mais sustentar as retiradas. (nasaa.org)
  • O esquema (Listverse) chamado Zeek Rewards mostrou como promessas de participação em plataforma online podem mascarar o fato de que os lucros pagos vinham essencialmente de novos investidores, não de operações robustas de negócio.
  • O caso da empresa “Caritas”, na Romênia, que prometia multiplicar valores investidos em poucos meses, mostrando suposta credibilidade pública, também se baseou no volume crescente de depósitos e na confiança coletiva, até desmoronar. (Wikipedia)

Sinais de alerta — especialmente quando vários aparecem juntos

Um único sinal não é necessariamente prova de golpe. Mas quanto mais sinais sobrepuserem-se, maior o risco. Aqui estão os mais característicos:

  1. Promissora rentabilidade muito alta com pouco ou nenhum risco aparente
  2. Documentação insuficiente ou opaca
  3. Pressão com senso de urgência
  4. Dificuldade ou atraso para resgatar valores
  5. Foco forte no recrutamento de novos investidores ou “sócios”
  6. Uso de linguagem técnica ou legal de forma que dificulte o entendimento real do investidor
  7. Mistura de contexto emocional, de grupo, de fé ou de afinidade

Como usar esses sinais sem fazer acusações diretas

  • Evite apontar nomes ou situações específicas até ter provas/documentação.
  • Use os sinais como filtro pessoal: se um investimento ou proposta ativa vários desses sinais simultaneamente, redobre sua atenção, faça due diligence, peça parecer técnico/jurídico, verifique histórico da empresa, dos gestores e dos produtos.
  • Considere que mesmo algo muito bem apresentado pode estar fragilizado se os fundamentos forem frágeis ou pouco claros — o marketing costuma ser bem melhor que o modelo real em esquemas fraudulentos.
  • Adote uma postura crítica, sem ingenuidade, respeitando a inovação, mas exigindo clareza, segurança, transparência e provas.

Conclusão

  • Inovação é bem-vinda — fintechs, tokenização, novos formatos de crédito ou investimento têm espaço real.
  • O problema não está na novidade, mas na opacidade, nas promessas exageradas, no uso de recrutamento como pilar principal, na falta de auditoria externa, na dificuldade de resgate e na promessa de ganhos garantidos sem lastro claro.
  • O acúmulo de sinais de alerta é o melhor indicador de risco.
  • Quanto mais um proponente foge de transparência ou demora a explicar o funcionamento econômico, mais justificado é o ceticismo.

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